A Regra dos 500! Astrofotografia, parte I

Astrofotografia, que tema maravilhoso.

É uma das situações de fotografia outdoor que eu mais gosto. O que conseguimos captar com a câmera, utilizando as técnicas corretas, vai além da imaginação humana. No meu canal abordo bastante esse tema, principalmente com videos sobre a lua, que são mais fáceis de fazer pra quem mora na cidade grande, como eu. Já Via Láctea, estrelas e constelações, você precisa realmente se afastar da PL (Poluição Luminosa) que assola os grandes centros. (Há anos estou sonhando com um apagão no Rio e nada..)

Mesmo com os videos beeem explicativos no canal, ainda pairam muitas dúvidas nos fotógrafos iniciantes. Por isso, resolvi organizar uma série de posts sobre o tema, começando pela famosa (mas ainda não tão conhecida) regra dos 500, que define qual a velocidade máxima você deve usar para fazer suas astrofotos. Na sequência, vou postar sobre:

• Aplicativos essenciais
• Como fazer o foco
• Equipamentos para a astrofotografia
• Star Trails
• Empilhamento e tratamento das fotos.

Então vamos lá:

Como calcular o tempo de exposição da sua foto noturna?

Essa é a pergunta que está na cabeça de 11 entre 10 astrofotógrafos iniciantes. Eu já ouvi todo tipo de absurdo nesta resposta, mas, sem enrolação, vou explicar aqui como funciona isso, o porque de tanta complicação, e como o SEU conjunto câmera+lente se comporta nessa situação.

Via Láctea na Patagônia, 2018; Foto respeitando a Regra dos 500, com 25 segundos de exposição em 17mm.   

Primeiramente: Porque isso? Porque o cálculo de velocidade da astrofotografia não é trivial como qualquer outra foto?

SIMPLES! Porque a sua câmera (e você) estão na Terra. As estrelas não! Isso vale pra Lua também, pro Sol, galáxias, Via Láctea,  pra todo mundo que tá orbitando ai pelo espaço. O nosso movimento é diferente do deles, portanto, se você não fizer esse calculo direito, acabará “borrando” as estrelas no céu, em um tipo de foto chamada de “Star Trails” (que também é bem legal, mas depende se você QUER ou não isso.)

Beleza, e daí?

E daí que, na astrofotografia, o fotógrafo sofre com algo diferente das fotografias normais diurnas: a falta absolta de luz. Sem luz, você precisa manipular ao limite as configurações de fotometria da sua câmera para obter o máximo de entrada de luz possível, afim de concluir a foto. Por isso usamos longas exposições e é aí que o bicho pega. Fazendo fotos longas, (acima de 30 segundos, 1 minuto, 10 minutos, etc) você fatalmente irá provocar este efeito do Star Trails, onde você perde completamente a definição do céu, estrelas, Via Láctea, etc, e passa a ter riscos no céu. É um efeito legal, concordo. Mas, e se você não quiser este efeito? (Vou falar mais detalhamente sobre Star Trails em outro post, é muita informação de uma só vez!)

Céu em Jasper, no Canadá, 2018; Foto com 20 minutos de duração provoca o efeito “Star Trails” nas estrelas

Aqui que entra a Regra dos 500

A Regra dos 500 foi inventada por algum gênio da matemática, (obrigado, meu querido!) que chegou a uma fórmula simples e objetiva: O número 500, dividido pelo valor da sua distância focal, resulta no tempo máximo em segundos. 

Hein?

Vamos por partes. Então você está ai diante de um céu exuberante, Via Láctea explodindo na sua cabeça, ao fundo umas montanhas que vão compor bem na foto. É isso, vai rolar aquela fotassa de astro. Vamos configurar a câmera.
ISO: Se você estiver com uma câmera de ponta, full frame, pode começar com o ISO em 3200, pra abrir os trabalhos. Se estiver com uma câmera de entrada ou intermediária, comece por 1600. Porque? Porque as câmeras de entrada tem qualidade inferior de sensor (são mais baratas né, não tem almoço grátis) portanto acabam por granular demais a foto em iso alto. Por isso, comece humilde nesse ISO). O seu ISO poderá ser incrementado, ponto a ponto, a medida que você for fazendo as fotos e sinta que precise de mais luz. 

Diafragma:
O mais aberto da sua lente, sem excessão. É uma 24mm 2.8? bota em f/2.8. Ah, é uma 17-40mm f/4? Bota em f/4. Você precisa de luz. Diafragmas fechados em astrofotografia provocam ruído na imagem. Vai por mim e abre esse diafragma ai.

Velocidade: É aqui que entra a tal regra dos 500. 
A minha pergunta pra você é: Qual é a distancia focal que você está usando nesse momento? Dica: Em astrofotografia, normalmente as pessoas apelam para as menores distâncias focais das suas lentes, ou seja, 17mm na 17-40mm, 11mm na 11-16mm, e por aí vai. Porque? Para poder pegar o máximo de céu e estrelas!

Mas beleza, supomos que você está com uma 17-40mm na câmera, em 17mm, aberta no talo. Então, para saber a velocidade, você vai operar a conta:

500 / distância focal = t

500 / 17mm = t

500/17 = 29,411.. ou 29 segundos.

Ou seja, com uma lente 17mm, você consegue fazer até 29 segundos de foto, sem borrar as estrelas. FATO. Pode testar aí.

• Ah, mas se eu resolver mexer na distância focal, fechar um pouco, colocar em 25mm? Ok, sem problemas, refaça a conta: 500/25 = 20 segundos.

Ah Marcello mas a minha câmera é de entrada, tem sensor cropado (APS-C).. e ai?
Muita coisa.
Se a sua câmera tem sensor cropado você precisa adicionar mais uma conta ai na regra dos 500.
Você precisa multiplicar a distância focal da lente, pelo fator de corte do seu sensor, antes de aplicar a regra dos 500. O fator de corte das câmeras cropadas Canon por exemplo é 1,6, já da Nikon é 1,5, isso varia de fabricante para fabricante, mas pra te ajudar eu coloquei uma tabela abaixo com os valores mais comuns. Então supondo que a sua câmera é uma Canon cropada (ex: SL1, T3i, T5i, 70D, 80D, 6D) você vai fazer o seguinte:

500 / (Distancia focal x 1,6) = t

500 / (17mm x 1,6) = t

500 / 27,2 = t

500 / 27,2 = 18,3 ou 18 segundos.

Ou seja, só porque a sua câmera tem um sensor APS-C, usando aquela lente 17mm, seu tempo de exposição já caiu de 29 segundos, para 18 segundos. No que que isso implica? Menos tempo = menos luz. Se, com 18 segundos, você achar que a foto ainda está escura, não está captando todas as estrelas que você queria, e você já está com o diafragma aberto no talo, qual é a solução? aumentar o ISO. Quanto maior o ISO, mais ruído na imagem.

Tabela dos principais sensores cropados e seus fatores de corte

Fabricante Tipo de Sensor Exemplos de câmeras Fator de corte
Canon APS-C (EF-S e EF-M Mounts) Toda linha Rebel, 77D, 80D, 6D, 7D 1.6x
Nikon DX Todas as câmeras formato DX: D3300, D5500, D7500, D500, etc. 1.5x
Sony APS-C a6000, a6300, a6400, a6500… 1.5x
Panasonic Micro Four Thirds Todas com sensor Live MOS e MOS 2.0x

Mas essa multiplicação pelo fator de corte tem que ser feita mesmo que eu esteja usando, por exemplo, uma lente da linha EF-S (Canon) ou DX (Nikon) que são feitas para as câmeras cropadas?

SIM! A distância focal escrita na lente segue um padrão único, então mesmo que ela tenha escrito 10mm na lente, ainda assim você deve multiplicar pelo fator de corte da sua câmera.

Veja abaixo mais alguns exemplos de fotos respeitando o limite de velocidade de acordo com a lente:

Serengeti, 2015: 30 segundos de exposição para 17mm de lente (camera full frame)

Via Láctea entre pinheiros no Canadá: Os mesmos 30 segundos, para 17mm de distância focal na Canon 5Ds (full frame)

A Regra dos 500 também funciona para a Lua; aqui, 2,5″ de exposição para 24mm de distancia focal. Como a cidade (e a lua) tem mais iluminação do que um céu escuro, não foi preciso esticar tanto a fotometria em busca da luz.

Estrelas congeladas em 25″ de exposição para uma distancia focal de 17mm na 5D Mark III. Teresópolis, 2017.

Assim funciona a Regra dos 500, essa é a forma correta de medir a velocidade para suas astrofotos. Quem te falar “ah, coloca ai até 30 segundos que vai dar certo” está apenas chutando uma resposta, não sabe a verdade. Afinal de contas, você pode fazer uma astrofoto com uma 400mm, fechando no topo de uma montanha, para pegar as estrelas ao redor do pico da montanha, não pode? Claro que pode! E aplicando a regra, temos 500/400mm = 1,25 segundos! Isso mesmo, acima de 1 segundo, você já estará borrando as estrelas, usando uma lente em 400mm!

Ou seja, com essa regra debaixo do braço, podemos chegar à seguinte tabela abaixo:
Valores arredondados

Distância focal tempo (full frame) tempo (APS-C 1.6x) tempo (APS-C 1.5x) tempo (Micro-Four Thirds 2x)
10mm 50″ 31″ 33″ 25″
15mm 33″ 21″ 22″ 16″
17mm 29″ 18″ 19,5″ 14″
20mm 25″ 15,5″ 16,5″ 12,5″
24mm 21″ 13″ 14″ 10,5″
28mm 17″ 11″ 12″ 9″
35mm 14″ 9″ 9,5″ 7″
40mm 12,5″ 8″ 8,5″ 6″
50mm 10″ 6″ 6,5″ 5″
60mm 8″ 5″ 5,5″ 4″
70mm 7″ 4.5″ 5″ 3,5″
80mm 6″ 4″ 4″ 3″
100mm 5″ 3″ 3″ 2,5″
120mm 4″ 2,5″ 2,5″ 2″
150mm 3″ 2″ 2″ 1,5″
200mm 2,5″ 1,5″ 1,5″ 1″
250mm 2″ 1″ 1″ 1″
300mm 1,5″ 1″ 1″ 0,8″
400mm 1,25″ 0,5″ 0,8″ 0,5″

Bônus: Videos! 
Não entendeu nada e precisa ver ao vivo? Confira nos videos abaixo, do meu canal POR TRÁS DA FOTO, algumas situações onde eu mostro a regra dos 500 ao vivo e a cores, durante a execução das fotos!

Deu pra entender? Espero que sim! No próximo post neste tema, vou falar do efeito contrário à Regra dos 500, ou seja, os Star Trails!

Abraços!

By |2019-07-23T00:35:38+00:00July 19th, 2019|Dicas de fotografia|

4 Comments

  1. Angela 20/07/2019 at 10:31 AM - Reply

    Super obrigada pelas dicas!

    • marcello 22/07/2019 at 5:30 PM - Reply

      Valeu Angela!

  2. Felipe Ribeiro 21/07/2019 at 12:48 PM - Reply

    Muito maneiro Brother!!! Muito bem explicado, vou utilizar essa regra nas próximas fotos. Tenho uma Canon APS-C e nunca consegui chegar a pegar a via-láctea, mas acho que é pq estou tentando fazer a foto na cidade.

    • marcello 22/07/2019 at 5:30 PM - Reply

      Fala Felipe, realmente, na cidade vc quase não consegue ver a via lactea, é preciso sair um pouco dos grandes centros! tem um app chamado dark sky que mostra os locais ideais, no mundo todo, de acordo com as cores do grafico! baixa lá! abraços!

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