Como focar no céu estrelado? Astrofotografia parte II

O foco perfeito na astrofotografia… É aqui que o bicho pega.

Neste segundo post sobre astrofotografia, vou abordar uma questão que me é perguntada por muitos alunos que passam pelo meus cursos e workshops.

“Marcello, como eu consigo fazer o foco nas estrelas, para ter aquela foto focada e perfeita?”

Esse tema é realmente espinhoso, mas nada que algumas dicas práticas não resolvam!

Vamos por partes. Para entender como conseguir o foco ideal no céu estrelado, precisamos entender alguns conceitos básicos:

  1. Foco manual x Foco automático
  2. Abertura do diafragma
  3. Foco no infinito

1. Foco manual x Foco automático

Praticamente todas as lentes modernas, de câmeras DSLR, tem 2 opções básicas de foco: manual ou automático. Essa opção é definida, normalmente, em um botão seletor na lateral da lente.

Para fotografias em velocidade (ação, esportes, pessoas, natureza, etc) damos preferência ao foco automático, que facilita demais a nossa vida. Com as câmeras mais modernas, eles tem até 90 pontos de foco, o que te dá ainda mais precisão para não perder aquele click no lance exato. Para a câmera fazer o foco no automático, ela busca, essencialmente, áreas de contraste. Quanto mais acentuado o contraste (luz/sombra) na sua imagem, mais fácil a câmera vai conseguir fazer o foco no auto. Agora, experimente focar no automático em uma parede branca, ou num céu absolutamente azul, sem mais nada na cena; É bem mais difícil, e, para algumas câmeras de entrada, impossível.

Já para fotografia de paisagem, com a câmera estabilizada no tripé, eu pelo menos prefiro usar o foco manual. Pois com ele, consigo colocar, manualmente, girando o anel de foco da lente, o meu foco exatamente onde eu quero na imagem, calculando a distância exata para maximizar minha área de foco (a famosa distância hiperfocal, mas isso é tema para outro post 😉 .

O botão de seleção de foco automático / manual (AF/MF) geralmente fica na lateral da lente

Beleza, e daí? e a astrofotografia nisso?

E daí que a astrofotografia geralmente lida com uma situação bem particular: o céu escuro, com pontos de luz bem fracos no céu (as famosas estrelas). Este céu tem pouquíssimo ou nenhum contraste, o que dificulta demais para a câmera encontrar o ponto para fazer o foco. É muito, mas muito, mas muito difícil focar em um céu noturno com o foco automático. Só não digo que é impossível pois tenho visto cada vez mais câmeras modernas por aí, e hoje eu não duvido de nada na fotografia digital. Mas, com todas as câmeras e lentes que já passaram pelas minhas mãos, posso garantir: não dá.

Por isso, para a astrofotografia, você deve sempre considerar em fazer o foco no manual. Lembre-se, sua câmera estará estabilizada em um tripé, então você poderá tranquilamente fazer o foco no manual.

2. Abertura do diafragma

Se você segue os videos no meu canal vai ver que em 90% deles, quando eu falo do diafragma para a fotografia de paisagem, menciono ele em f/8, f/11, até f/22, assim estou garantindo uma profundidade de campo maior, colocando vários elementos e planos em foco.

Na astrofotografia a regra seria a mesma, porém temos um problema a mais para lidar: a falta de luz. Portanto, usar o diafragma mais fechado, em f/8, f/11, etc, vai acabar te prejudicando na captação de luz. Na astrofotografia de paisagem, precisamos usar todos os recursos possíveis para captação da pouca luz no ambiente, apelando para iso alto, velocidade super lenta (considerando a Regra dos 500, claro) , e, óbvio, diafragma mais aberto possível! Não à toa, os grandes fotógrafos de astrofotografia trabalham com lentes com abertura f/2.8, para garantir o máximo de captação de luz sem ter que apelar tanto para o iso alto, o que afeta a qualidade da imagem.

Mas, Marcello, se eu abro o diafragma o máximo possível eu não perco profundidade de campo? 

Sim, perde. Mas, na astrofografia de paisagem, normalmente você tem uma cena de paisagem com pouco ou nenhum primeiro plano; tudo se concentra no plano do infinito, como montanhas, árvores, estradas, além é claro do próprio céu estrelado. Dessa forma, você pode focar em um ponto distante, ou mesmo nas estrelas, e tudo na sua cena estará em foco!

Se você tiver um primeiro plano acentuado, e a poucos metros da câmera (uma pessoa em pé, um carro, uma construção, etc) ai você terá que optar onde colocar o seu foco, pois se colocar nas estrelas, fatalmente este primeiro plano sairá com pouco foco. Ou então, fechar seu diafragma, lembrando que estará perdendo captação de luz.

Portanto fica a dica: Quer sair na foto também? Coloque-se mais longe da câmera, pelo menos uns 20/30  metros, (quando estiver usando uma grande angular, claro) que você também sairá em foco!

Tudo em foco; Me coloquei longe da câmera, uns 20/30 metros, utilizando f/4, a maior abertura dessa lente (Canon 17-40mm)

3. Foco no infinito

Outra opção de conseguir o foco perfeito, é usar a própria marcação da lente onde indica o símbolo do infinito (∞) e colocar o foco ali, usando no manual claro. Assim, você está utilizando um recurso da própria lente, sem precisar encontrar seu foco nas estrelas ou em um ponto ao longe. MAs atenção: Nem sempre o ponto exato do infinito na lente é onde está desenhado o ícone (rídiculo eu sei, mas é assim mesmo) portanto, se você quiser usar este recurso, pratique bastante , de dia mesmo, fazendo várias fotos e mexendo levemente na posição do infinito, milímetros mesmo, até achar a foto que tenha o foco ideal. Nesse momento, faça uma marcação (caneta, lápis, algo que marque mesmo) na sua lente para saber que ALI é o seu ponto do infinito.

A marca do infinito na lente (∞). Cuidado com ela! 

Agora sim: Como fazer o foco nas estrelas?

Entendidos os conceitos básicos, vamos para a prática: Como fazer o bendito foco nas estrelas e ter a sua foto totalmente focada!

Antes de começar a ajustar o foco, vou considerar que a sua câmera já está posicionada, no tripé, estável, apontando para o céu, onde você quer fotografar ok!

  1. Coloque a sua lente no modo manual, através do seletor na lateral dela
  2. Abra a sua tela LCD atrás da câmera (live view)
  3. Procure, na tela, alguma estrela, que você consiga ver com os próprios olhos, ali na tela mesmo, elas ficam piscando.
  4. Encontrou? Agora dê um zoom digital em cima dessa estrela (mesma técnica de foco manual para fotografia de paisagem, se tem dúvida, assista este video). Ela vai crescer na sua tela, provavelmente fora de foco.
  5. Maravilha, chegamos na melhor parte. Gire o anel da sua lente , a estrela vai começar a diminuir na tela, até ficar bem pequena e brilhante, bem definida. Se ela começar a aumentar e sair do foco novamente, você passou do ponto, volte o anel na direção inversa até encontrar o ponto novamente.
  6. Faça uma foto de teste, e depois abra a foto na tela, e dê um zoom máximo nas estrelas, para ver se estão em foco absoluto. Se não estiverem, repita o procedimento a partir do item 2.
  7. Repita as fotos de teste até encontrar o foco perfeito.
  8. Encontrou? Não mexa mais no seu anel de foco. Enquanto você estiver usando esta distância focal (16, 17, 20mm etc) este será o ponto do seu foco.

Dica bônus 1

É muito comum esbarrarmos no anel de foco da lente, e ele sair do lugar, bem de leve. É o suficiente para você perder o foco. Então, quando encontrar o foco perfeito (item 8 acima) passe uma fita adesiva, pode ser fita crepe, ou tipo uma fita silver tape, pegando o anel do foco e uma parte qualquer na lateral da lente. Essa fita vai prevenir que você tire o anel do lugar, sem querer (lembre-se, estará bem escuro nesse momento, propício para trapalhadas)

Dica bônus 2

Não está enxergando nenhuma estrela na tela do live view (item 3 acima)? Dê uma extrapolada no iso (digamos que ele esteja em 3200; coloque em 6400 ou mais, se tiver) pois normalmente nesse momento a sua tela vai ficar ainda mais clara, quase estourada. Pode ser que você então consiga ver alguma estrela. Faça o foco (itens 4 a 7) e depois volte o iso para o valor que você deseja usar.

Marcello, impossível. Não consigo encontrar nenhuma estrela brilhante.

Ok, o céu pode estar muito escuro mesmo, ou talvez alguma cidade próxima esteja iluminando o céu de leve e “matando” as estrelas. Nesse caso, você pode buscar outra fonte de contraste que esteja distante; uma luz ao longe, uma casa/cidade, algo que você consiga enxergar na tela do live view e fazer o foco manualmente. Algo longe, a mais de 20/30 metros.

Caso você esteja num deserto e realmente não tenha nada em volta, você também pode optar por iluminar, com a sua lanterna, algum ponto o mais distante possível no chão, (20/30 metros) e fazer o foco ali, no chão. Depois reposicionar a sua câmera para o céu e começar as experiências para ver se o foco está legal.

Se nada disso adiantar, não tem jeito; vai ter que usar a marcação do infinito na sua lente e ir testando até chegar no foco ideal. Porém, por experiência própria, normalmente conseguimos o foco nas estrelas mais brilhantes mesmo.

Via Láctea na Patagônia, 2018;Foco perfeito. Nesse caso em particular, eu fiz o foco no manual naquela luz vermelha na montanha, que deve ser algum refúgio para trilheiros. Ela estava bem visível e me facilitou a vida! 

Pinheiros em Jasper, no Canadá;Neste caso, fiz o foco no topo das árvores. A iluminação de um hotel próximo deixava elas levemente claras, o que me permitiu focar nelas e não no céu. Como o topo das árvores estava longe de mim, já é considerado infinito, portanto o foco deu certo! 

Videos! 
Não entendeu nada e precisa ver ao vivo? Confira nos videos abaixo, do meu canal POR TRÁS DA FOTO, algumas situações onde eu mostro a captação da astrofotografia ao vivo e a cores, durante a execução das fotos!

Deu pra entender? Espero que sim! No próximo post neste tema, vou falar sobre os Star Trails!

Abraços!

By |2019-11-22T19:16:43+00:00November 22nd, 2019|Dicas de fotografia|

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error: ©Marcello Cavalcanti