No nosso quarto dia em busca incessante aos Pumas, a moral do grupo já estava um pouco abalada.

Todos achávamos que seria bem mais simples ver estes incríveis animais, tal qual são os safaris na África. Em 2015 estive por 8 dias rodando o Serengeti na Tanzânia, com a mesma OneLapse, e tinha dia que ficávamos “escolhendo bicho”. Tipo “hoje quero fazer fotos de guepardo, vamos procurar” tal a profusão e variedade de animais por toda parte. Na Patagonia não é bem assim. Apesar de termos tido vários avistamentos, os animais são furtivos, tímidos, não gostam da presença humana e fogem rápido. Além disso, são cerca de 100, no máximo 150 pumas espalhados por toda a região do Torres del Paine, o que torna tudo mais difícil. Outros mamíferos que eu achava que veria mais facilmente, como raposas, gambás e lebres também pouco deram as caras. Só os guanacos realmente estão por toda parte, sendo vistos com muita facilidade.

Trocamos de guia naturalista, e hoje partimos  para o interior de uma estancia (fazenda) colada no parque. Nesta estancia há a criação de ovelhas, portanto os pumas estão sempre a rondar a área em busca de presas fáceis. Começamos novamente o dia cedo, patrulhando os arredores do parque e logo entramos na fazenda, tudo já combinado com os donos na noite anterior (as entradas são pagas). Vimos um nascer do Sol épico de dentro da van, mas não paramos, para manter o foco. Hoje porém tivemos uma novidade nesta viagem, o dia todo: vento, constante, muito mas muito forte. Coisa de 50km/h com rajadas 80km/h, que literalmente te derrubam no chão. O problema desses ventos é que os animais acabam ficando mais quietos, abrigados. 

 

Paramos em um ponto de onde se pode ver a praia da Laguna Sarmiento, e o nosso guia-motorista pediu a mim, ao Luciano Candisani, e ao Marcelo Melo, outro participante do workshop, que o ajudassem com as longas lentes das câmeras a varrer esta área, procurando pelos felinos. Ficamos fora da van uns 20 minutos, cada um cobrindo uma parte, e.. nada.

Seguimos adiante até uma parte da estrada, e ele resolveu parar para olhar com o binóculo. Neste ponto há uma montanha ao lado da estrada, e no topo dela enormes pedras formando cavernas, locais que os pumas gostam de se esconder. Olhou daqui, olhou dali, e de repente.. gritou “PUMA! ALÍ! POR SOBRE LA PIEDRA! MARCELLO, SACA LAS FOTOS! MIRA! MIRA!”

Apontei a câmera para a pedra, com a lente 400mm, e comecei a clicar. Fui conferir a foto e realmente era um puma, adulto, em pé na pedra, porém a uma distância ridiculamente grande, eu diria uns 600-800m de nós.

O guia estava em extase. Ele saiu do carro, o vento uivando lá fora, e disse: “Vamos! Subimos cinco! Vamos a subir la montaña!” Achei surreal de principio, era uma longa subida, quem disse que o puma ia ficar ali esperando? Mas assim fizemos. Juntamos o grupo, 2 participantes decidiram não subir, e fomos avançando ladeira acima. A inclinação ia empinando, no final quase usávamos as mãos para chegar. Em cerca de 20 ou 30 minutos estávamos no topo da montanha, bufando, com todo o equipamento nas costas.

O guia naturalista estava por estas montanhas, a pé, procurando os pumas. Foi avisado pelo radio e veio ao nosso encontro, já por cima. Ele nos pediu que nos aproximássemos da pedra onde estava o puma, e aguardássemos. Chegou sozinho perto dele (na verdade era umA puma, conhecida pelo nome de “Tortita”) e fez um sinal para que chegássemos mais perto. A partir dali, ninguém fala nada, ninguém emite um som. Apenas clica. Quando vi, estava cara a cara, uns 15 mts de distancia de uma puma adulta, grande, parruda, deitada tranquilamente no alto de uma montanha, olhando o visual lá embaixo, sem se incomodar com a nossa presença. O Lago Sarmiento ao fundo ainda dava um background natural que mais parecia um “azul de Photoshop” na foto. NA-CRE-DI-TÁ-VEL. Nesse momento tudo q eu ouvia era o vento uivando e as câmeras disparando como metralhadoras. A sensação de estar no mesmo ambiente físico de um animal selvagem deste porte, a poucos metros, é assustadora e sensacional ao mesmo tempo. Foi uma descarga de adrenalina como senti poucas vezes na vida.

Em determinado momento, o vento apertou ainda mais e Tortita resolveu se mexer. Se levantou, saiu e desceu para uma toca, ainda nas pedras. Novamente o guia desceu para ver onde ela estava, e calmemente nos chamou. Era uma nova cena, agora a puma estava entocada e no meio de seu habitat natural, as estepes. É impressionante como ela desaparece neste tipo de vegetação, se confunde com as cores idênticas e você perde de vista. Ou seja, o avistamento é realmente difícil. Fizemos mais uns 15min de fotos por ali e o guia nos pediu para descer e deixá-la em paz. Fim de papo, alma lavada, experiência espetacular.

Passamos o resto do dia rodando a região atrás de novas oportunidades, sem sucesso. Mesmo pumas que são flagrados diariamente em pontos específicos desta estancia não foram vistos. O vento muito forte colaborou negativamente para a nossa sorte, e terminamos o dia com “apenas” este avistamento, que para mim valeu demais a pena. Este é o grande desafio da fotografia de vida selvagem. Você pode ter uma experiência longa, tranquila e farta de imagens, ou curta e adrenalizante; nunca se sabe o que vai acontecer. São animais selvagens, em seu habitat natural, e que tem o livre-arbítrio de fazer o que quiserem. 

Amanhã devemos focar mais em fotografia de paisagem, indo ainda mais cedo ao Torres del Paine, Até lá!