Depois de anos de trabalho, finalmente vejo se concretizar meu novo livro, Rio, Paisagem Revelada. 

Meu apego pela paisagem do Rio começa na infância.

Aos 11 anos, participando de uma gincana no grupo de escoteiros, ganhei uma câmera. Era uma Kodak Instamatic, camerazinha básica de filme, simples de usar. Fiquei encantado e, a partir daí, a fotografia me acompanhou para sempre. Já a geografia do Rio sempre foi uma fixação pessoal. Da casa dos meus pais, no bairro da Gávea, era possível ver o Morro Dois Irmãos. Um ângulo bem particular, os dois cumes, lado a lado, quase formando um coração, cercados de verde. À tarde, o sol batia na face dos Irmãos e os deixava vivos, amarelo-ouro. A Pedra da Gávea era outra que me fascinava. Quando íamos à Barra da Tijuca de carro, eu brigava com meus irmãos para ir na janela da direita só para poder ver a Pedra bem de perto, passando por São Conrado. Minha mãe apontava lá para o alto e nos lembrava que já dormiu lá em cima, acampada, na orelha da Pedra, nos anos 1970. O Corcovado era esplendoroso. Aquele paredão vertical, visto da Lagoa, como pode uma montanha ter nascido para ser o pedestal mais famoso do mundo? O Pão de Açúcar eu não via muito, raramente ia para aquelas bandas. Mas quando ia, dava uma sensação de nostalgia. Era como se ele fosse a identidade do Rio Antigo.

Cresci nessa paisagem, e me acostumei a explorá-la por cima (trilhas e mirantes) e por baixo (praias, parques, e dentro do mar). Anos se passaram e, finalmente, já dando aula de fotografia, e com o canal no Youtube ativo, comecei a perceber que o interesse dos espectadores e alunos nas minhas aulas eram tanto sobre a técnica fotográfica como também pelos lugares que eu mostrava no Rio. Com o tempo, entendi que faltava um material que unisse esses dois mundos: o olhar sensível e o conhecimento técnico.

E olha que a ideia não é nem original, ela só não tinha acontecido no Rio mesmo. Eu tenho dois guias fotográficos, um de Fernando de Noronha, que comprei quando estive lá em 2014, portanto 10 anos atrás, e outro de San Francisco (EUA) que comprei mais recentemente. Esse de SF é de uma editora americana chamada PhotoSecrets, que só publica guias fotográficos das mais variadas cidades, como Nova York, Nova Orleans, Yosemite Park, Havaí, Las Vegas, entre outros. Então, ora pois, porque não fazer um guia desses só que do Rio de Janeiro?

E foi o que eu fiz. Mas, diferente desses guias que eu já tinha, eu resolvi fazer um livro num formato maior, como um livro de arte mesmo, e também com as informações sobre os locais a fotografar.  Com 64 pontos de interesse entre Rio e Niterói, o livro funciona como um roteiro fotográfico completo, reunindo informações técnicas sobre direção da luz, sugestões de equipamentos, horários ideais, composições e curiosidades históricas que ajudam o leitor a compreender a formação visual da cidade ao longo dos séculos. Veja abaixo algumas das fotos produzidas para o livro. Você reconhece todos esses lugares?

A ideia é muito antiga e já habita a minha mente há anos (acho que desde que eu comprei o tal guia de Noronha) mas eu comecei a preparar esse livro como um projeto real mesmo há cerca de 2 anos, listando os locais que eu gostaria de colocar no livro e vendo quais fotos eu já tinha e quais eu teria que fazer. A primeira lista tinha 250 lugares entre Rio, Niterói e região serrana, e logo eu percebi que seria inviável fazer dessa forma. Reduzi para 100 lugares (retirando a serra) , posteriormente para 70, até chegar em 64 lugares, sendo 50 no Rio e 14 em Niterói – era preciso guardar alguns para uma 2º edição né! 😉

Os lugares variam entre trilhas, mirantes, cachoeiras, praias, monumentos, edifícios históricos, fortes militares preservados, bairros inteiros (como Urca ou Santa Teresa, por exemplo) equipamentos públicos e privados, parques municipais, estaduais e federais. Quem já conhece bem o Rio pode achar que é pretensão da minha parte “apresentar” lugares como o Cristo Redentor, a praia do Leblon ou o Forte de Copacabana. Mas o que proponho aqui é outra coisa: um refinamento do olhar. A ideia é revisitar esses pontos clássicos — e também outros menos conhecidos — sob a minha perspectiva, um fotógrafo de paisagem crítico e experiente. Vou mostrar como a luz certa muda o jogo, sugerir equipamentos, técnicas e enquadramentos que podem transformar uma cena já tão fotografada em algo único, longe do banal que se repete todos os dias.

Como o espaço físico do livro é limitado, decidi ampliar o conteúdo de cada locação com a ajuda da tecnologia: em cada página, um QR code leva o leitor a vídeos com dicas, sugestões de pontos de interesse próximos e minhas impressões pessoais sobre o local — tudo disponível em português e inglês. Para cada local, sinalizei a acessibilidade para pessoas com deficiência (PcD). Essa preocupação surgiu de conversas com alunos que me diziam ter poucas opções para fotografar de forma independente. Acredito até que nunca se fez um levantamento tão específico para a fotografia, e espero de verdade que este livro também sirva como guia para incentivar as autoridades a melhorarem — e muito — o acesso a esses lugares.

Viabilizado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura da cidade do Rio de Janeiro e editado por Gávea Editora de Imagens, o  livro teve o apoio da Canon do Brasil e Brewteco, e patrocínio de Grupo Brasil GTW, Cavallieri Cursos, Consulta Carioca e Vita Checkup. O lançamento será  no dia 9 de dezembro, às 17h, no Brewteco do Botafogo Praia Shopping.

O evento é aberto ao público e eu estarei lá vendendo e autografando os livros! Espero você lá!

abraços,

Marcello