A NASA divulgou recentemente uma imagem impressionante da Terra feita durante a missão Artemis II, essa abaixo, clicada pelo astronauta Reid Wiseman no dia 2 de abril de 2026, que prova não somente que a Terra é, de fato, redonda, rs, mas também mostra duas auroras acontecendo (“embaixo” na imagem, é uma aurora boreal, no norte do planeta, e “em cima” na imagem, é uma aurora austral, no sul do planeta) e também a luz zodiacal, esse clarão em forma de cone de luz esbranquiçada “à direita” do planeta.
(clique na foto para acessar o site da NASA e baixar a foto gratuitamente em alta resolução)
A NASA divulgou também a fotometria:
A foto foi capturada com uma Nikon D5 usando ISO 51200, f/4 e 1/4 de velocidade.
O que chama atenção não é só a estética — é a física.
No momento da foto, a nave estava viajando a quase 4 km/s, e mesmo assim a imagem não apresenta borrão perceptível do movimento da Terra.
Isso levanta a pergunta:
qual seria o tempo máximo de exposição possível nessa situação?
Antes de entrar nos detalhes da velocidade, é importante observar que a foto foi feita do lado noturno da Terra no momento, ou seja a superfície terrestre estava bem escura. Por isso eles precisaram subir bastante o iso (51.200!!) para registrar com clareza os detalhes do continente africano, as nuvens etc. Vale lembrar que essa iluminação é do Sol, que estava do outro lado, porém refletindo sua luz na superfície da Lua e retornando para a Terra.
Agora, vamos lá, sobre a velocidade utilizada (1/4s):
Na astrofotografia, usamos regras como:
-
regra dos 500
-
regra NPF
Essas regras funcionam porque as estrelas estão, na prática, no infinito.
O movimento observado é causado pela rotação da Terra, que gera uma velocidade angular praticamente constante.
No espaço, o problema é outro:
-
o objeto (Terra) está próximo
-
existe movimento relativo entre câmera e alvo
-
a velocidade angular depende da razão velocidade / distância
O CONCEITO CHAVE: MOVIMENTO ANGULAR
O borrão em uma imagem não depende diretamente da velocidade linear, mas de quanto a imagem se desloca no sensor durante a exposição.
Esse deslocamento é ditado pela velocidade angular:
w = v/d
onde:
-
v = velocidade relativa
-
d = distância até o objeto
DERIVANDO A FÓRMULA
Para evitar borrão perceptível, queremos que o movimento da imagem no sensor seja menor que o tamanho de um pixel. E esse movimento está totalmente relacionado à distancia focal utilizada na foto. Basicamente, quanto menor a distância focal (grande angular) mais tolerante a imagem é a movimentos, ou seja maior o tempo de exposição ( e isso vemos claramente na velha regra dos 500).
Vale lembrar também que o tamanho de um pixel não é uma medida fixa. Ele depende da quantidade de megapixels de um sensor. Sensores full frame com menos megapixels (como a D5, que tem 20.8MP) tem pixels maiores. Se por um lado, ela tem “menos capacidade” de esticar uma foto a um tamanho grande, por outro lado o pixel maior capta mais luz, revelando uma foto com menos ruído, e também tolera mais movimento do que um pixel menor.
Se o objeto gira no campo de visão com uma velocidade angular w, a imagem se desloca no sensor com velocidade:
velocidade no sensor = f . w
onde:
-
f = distância focal
-
w = velocidade angular
Vamos dar então variável t para o tempo de exposição, que precisa ser incluído na fórmula.
deslocamento total = f . w . t (isso é só velocidade x tempo)
Queremos também que esse deslocamento seja de, no máximo 1 pixel, para não percebermos o borrão na foto.
então:
deslocamento <= pixel (p)
substituindo:
f . w . t <= p
Agora vamos reorganizar a fórmula, para isolar a variável t (tempo):
t<= p / (f . w)
O tempo máximo seria então:
tmax = p / (f . w)
Vamos desmembrar a velocidade angular (w) na fórmula. Sabemos que w = v/d.
Então:
tmax = p / (f . (v/d))
Simplificando a fórmula, temos:
tmax = (p . d) / (f . v)
Onde:
- tmax = tempo máximo de exposição, em segundos
- p = tamanho do pixel da câmera (Nikon D5)
- d = distância da nave Orion até a Terra
- f = distância focal utilizada (em mm)
- v = velocidade da nave Orion
Precisei buscar alguns dados para decifrar algumas dessas variáveis.
Observando o EXIF da foto entendemos que ela foi feita no dia 2/4, cerca de 30 minutos após o TLI, que é a manobra conhecida como Injeção translunar, ou seja, é quando os astronautas abandonam a órbita da terra ligando os motores da nave e direcionando-a para a Lua. A nave alcança uma velocidade altíssima nesse momento, para “se livrar” da gravidade da Terra (segundo o site NSS.org, foram quase 6 minutos de motor ligado dando um boost extra de 1.390km/h na velocidade que já era de aprox. 28.000 km/h). Cerca de 3o minutos depois dessa manobra, a nave já está perdendo velocidade, sendo “freada” pela gravidade da Terra, mas enfim rumo à orbita da Lua. Nesse momento, calculamos a velocidade de 13.300 km/h ou cerca de 3,7km/s . A distância, nesse momento, era de cerca de 21.000 km da Terra. O EXIF também mostra a distância focal, de 22mm (a lente foi a Nikkor 14-28mm f/2.8, apenas a título de curiosidade)
A Nikon D5 tem 20.8MP em um sensor full frame (35mm) o que dá uma medida de 6.44µm (micrômetros) por pixel.
Já temos todos os dados, então vamos convertê-los para a mesma medida (metros), para aplicar na fórmula.
- p = tamanho do pixel da câmera (Nikon D5) = 6.44µm = 6,4 x 10-6 m (10 à menos 6)
- d = distância da nave Orion até a Terra = 21.000km = 21.000.000 m
- f = distância focal utilizada (em mm) = 22mm = 0,022 m
- v = velocidade da nave Orion = 3,7km/s = 3.700 m/s
Então:
tmax = (p . d) / (f . v)
tmax = (6,4 x 10-6) . (21.000.000) / (0,022 . 3.700)
tmax = 134,4 / 81,4
tmax = 1,65 s
simplificando: tmax = 1,6 segundos.
Ou seja
Segundo essa fórmula, o tempo máximo de exposição da foto da Terra, feita com a Nikon D5, naquela velocidade de deslocamento e distância da Terra, é de até 1,6 segundos de exposição para que a Terra não saia borrada.
AQUI ENTRA OUTRO PROBLEMA
Essa velocidade de 1,6 segundos não é utilizável a mão livre na fotografia. Mesmo as câmeras mais modernas, com sistema de amortecimento do sensor (IBIS) é difícil fazer uma foto de 1 segundo na mão. E a Nikon D5 não tem esse sistema. Para usar essa velocidade ele precisaria apoiar a câmera em um tripé ou algo que a mantivesse estável. E sabemos que o espaço diminuto da nave Orion, com 4 astronautas, não comporta um tripé ou nada a mais do que realmente precisa ser levado.
Além do mais, mesmo de tripé a nave também da suas chacoalhadas, portanto uma velocidade tão lenta dessas simplesmente não é funcional. Então o astronauta optou por subir a velocidade para “rápidos” 1/4 de segundo, (o que também é lento), mas na condição dele já ajudaria bastante a estabilizar a câmera – vamos lembrar que ele está em ambiente de microgravidade, sem conseguir estabilizar o corpo direito! – escurecendo bastante a foto. Para compensar essa perda de quase 3 pontos de luz, ele precisou subir bastante o ISO, batendo a foto a incríveis 51.200 de ISO e conseguindo manter a câmera estabilizada o suficiente para a foto existir e ser publicada mundialmente pela NASA.
Abraços,
Marcello
SOBRE O AUTOR
Marcello Cavalcanti
Fotógrafo outdoor com 20 anos de experiência. Youtuber com o canal Por Trás da Foto, professor de fotografia presencial e online, idealizador dos Cursos Online Fotografia de Paisagem., Filter Masters by K&F Concept, A Caixa Preta do Fineart, Lightroom Classic Completo, e vencedor de prêmios relevantes no cenário da fotografia de paisagem e natureza. Cadastre-se na minha newsletter para ficar sabendo dos novos lançamentos, promoções e dicas de fotografia!
