Fotografando o Rio no verão – as dicas definitivas!

Que o Rio de Janeiro é fotogênico desde criancinha todo mundo já sabe.

Um verdadeiro “bebê Johnson” que cresceu e virou aquela mulher linda, a famosa atriz da novela que faz sempre o papel da mocinha, da princesa. E é aí que está o problema. Por ser bonito a qualquer hora do dia (até de noite, no escuro), os fotógrafos do Rio são o que eu chamo de “criativamente preguiçosos”. Não me levem a mal, por favor, mas, para um fotógrafo de paisagem, qual é o motivo de sacar uma câmera às 2 da tarde de um lindo dia de Sol na Pedra do Arpoador e clicar aquele clichê basico só para mendigar likes na rede social? Neste momento você deveria é estar aproveitando a praia, isso sim! 😉 É importante diferenciar a “fotografia de paisagem” da “fotografia de turismo”.

Por este motivo eu resolvi escrever uma série de posts sobre as 4 estações do ano no Rio e como elas influenciam a fotografia de paisagem por aqui. SIM, você pode ter esquecido, mas o Rio também passa por Verão, Outono, Inverno e Primavera! Por termos altas temperaturas e mais de 300 dias de Sol por ano, muita gente ignora esse fato. O calor pode ser bem parelho entre elas (tirando ai o inverno quando temos gélidas noites de 17 graus C) mas a LUZ muda bastante. Vou repetir, nobre fotógrafo: A LUZ MUDA! E MUDA BASTANTE!

O Rio é uma cidade tropical portanto as estações não são tãaaaaaao definidas como nas pontas dos hemisférios, ok.

Mas, por causa da geografia acidentada da nossa Cidade Maravilhosa – Cadeias de montanhas, picos de até 1.000 m de altura e praias logo em frente, a luz do Sol navega de forma recortada e seletiva por entre as montanhas, principalmente nas primeiras horas e últimas horas do dia (famosas “blue hour” e “golden hour”) revelando sombras que mudam a cada minuto, tons rosados na face das montanhas – compostas basicamente por granito e gnaisse – permitindo que o fotógrafo comprometido com a luz ( e não com a paisagem) consiga clicar cenas memoráveis e realmente belas na cidade.

Mas.. para que você consiga sucesso nessa missão de entender a luz carioca, você precisa entender como essa luz se comporta em cada época do ano e planejar as suas fotos de paisagem a partir disso. Neste primeiro post sobre as 4 estações, vou falar do nosso VERÃO CARIOCA.

Um retrato do verão carioca: Lindo dia de Sol terminando com nuvens carregadas. Vem chuva aí..

O verão no Rio é a estação mais ingrata e emocionante de se fotografar, principalmente para quem gosta de registrar condições meteorológicas extremas.

O verão nas nossas bandas vem esquentando cada vez mais, ano após ano, basicamente influenciado pela degradação da Terra, o famoso “aquecimento global”. Este fenômeno (botei entre aspas porque tem gente que não acredita nisso hahahaha) vem provocando mudanças climáticas severas em todo o planeta – queimadas em florestas boreais, invernos hiper rigorosos, verões secos e extremamente quentes – e claro que o Rio (e o Brasil) não poderiam ficar de fora dessa festa do fim do mundo.

Se antigamente tinhamos no Rio verões quentes e úmidos, com 2, 3 dias de Sol intenso e depois alguns dias de chuva forte, agora temos verões inicialmente secos, e na sequência, chuvas muito fortes, quase todo dia, especialmente no final do dia. O aquecimento da água do Oceano Atlântico provoca ainda mais calor e a cidade tem entrado em ebulição, com colunas de nuvens de calor formando as Cumulonimbus (nuvens carregadas, prontas para aquela tempestade) vários dias seguidos na cidade, principalmente entre fevereiro e abril (início do outono). Este ano tivemos a maior chuva dos últimos 22 anos, com mais de 300mm de água caindo do céu em 24h.

Mas, e a fotografia nisso? Vamos ser mais direto, Marcello?

Nuvens e chuva

Objetivamente falando, quem gosta de nuvens grossa e bem definidas, subindo verticalmente aos céus (as chamadas Cumulus Congestus e Cumulonimbus) vai se esbaldar no verão carioca. Elas ocorrem com frequência, e são vistas principalmente nas áreas mais quentes do Rio, como em cima da baixada fluminense e também em cima da Baía da Guanabara, entre o Pão de Açúcar e o maciço da Serra dos Órgãos (Petrópolis, Teresópolis, etc). Olhando para leste, você poderá vê-las em formação vertical e muito rápida a partir do meio dia dos dias mais quentes e úmidos. Elas seguem se formando até por volta das 18h, quando, se tiverem força suficiente para subir a altas altitudes, despejam chuva grossa na cidade, por um período curto de tempo (1 ou 2 horas). Portanto, fotografando de oeste para leste, é fácil enquadrar essas nuvens incríveis com os nossos monumentos naturais como Pedra da Gávea, Corcovado ou Pão de Açúcar. Cuidado com o contra-luz, pois nesse momento, entre meio dia e 6 da tarde, o Sol está justamente atravessando o céu bem alto (verão né) e você poderá ter dificuldades em acertar a luz para iluminar as nuvens decentemente.

Explosão de uma cumulonimbus por trás do Pão de Açúcar, vista da praia de Copacabana
Formação das nuvens de calor já pela manhã, por sobre toda a cidade, em dezembro. Foto feita do mar.
Muito prazer, Cumulonimbus. Ela se move rápido e desmancha num piscar de olhos.
Minha foto de verão preferida, feita em 2017, a partir da praia de Itaipú, em Niterói. Faça as contas: As montanhas mais altas retradas na foto tem entre 500-800m de altura. Quanto será que tem essas nuvens?

Raios!
Junto com essa chuva vem os raios, outro objeto de desejo dos fotógrafos de paisagem. MAS ATENÇÃO: Fotografar raios exige muito cuidado e principalmente respeito à natureza. Raios matam! Matam de verdade! Se você for se aventurar nesta missão, não esqueça de:
• Se proteger em um local abrigado, coberto, como um carro, ou uma varanda de um apartamento por exemplo. Ficar ao ar livre tomando chuva e assistindo os raios cairem é o maior dos erros, o raio sempre busca o ponto mais alto para “facilitar” sua chegada ao chão, e esse ponto pode ser a sua cabeça. Esqueça árvores e postes! Saiba mais como se proteger aqui: https://veja.abril.com.br/ciencia/saiba-como-se-proteger-dos-raios/

Uma tempestade de raios no Rio pode atingir facilmente 2.000 raios, portanto a chance de conseguir fotografar unzinho que seja é grande. Alguns raios cortam o céu horizontalmente, outros caem verticalmente direto no chão, nas montanhas ou no mar. Como esses raios são provenientes das tempestades de calor, o monumento natural “mais fácil” de se clicar com os raios é o Pão de Açúcar, pois é naquela região que a chuva costuma cair, se movimentando para o interior da Baía da Guanabara ou Niterói. Mas, como não dá para prever o movimento dos raios, experimente apontar a câmera para o Corcovado também, pois na cabeça e nos braços do Cristo Redentor tem pára-raios instalados, assim como nas antenas de transmissão do alto do Sumaré. Pode render boas fotos também.

Raio espetacular caindo em Niterói, com o Pão de Açúcar silhuetado à frente. Fiz protegido em um posto de gasolina no Aterro. 
Fiz da praia, contrariando as regras de segurança. MAS: Sob minha cabeça não havia uma nuvem sequer, estava Sol ainda! Era uma tempestade raios localizada em cima das Ilhas Cagarras! 
Mesma coisa da foto anterior. Não havia nuvens sobre a minha cabeça, os raios estavam caindo em Niterói. Feita do Mirante Dona Marta.
Fiz essa de dentro do carro, com um pedacinho da janela aberta, a câmera tomando chuva com a lente para o lado de fora, na Lagoa, durante uma forte tempestade em fevereiro/2019.

Estiagem e o Pós-chuva
Por ser uma metrópole, o ar fica bem poluído quando se tem pelo menos 10 dias sem chuva (em janeiro/2019 tivemos quase 30 dias seguidos sem chuva!), e isso você pode perceber muito bem olhando para o mar, nestes períodos sem chuva e sem nuvem; uma grossa camada cinza horizontal fica estática no horizonte. Fotos de paisagens ao longe também não ficam boas nestes períodos sem chuva, pois a visibilidade é bem prejudicada. A não ser que se esteja fazendo um contraluz, ai não faz muita diferença – na verdade a névoa de poluição pode até ajudar a deixar a imagem com menos definição ainda, privilegiando as silhuetas.

Porém.. um dia chove. E chove forte no Rio. Atenção à meteorologia! Caso o dia seguinte seja seco, sem chuva, está aí um bom motivo para acordar cedo e levar a câmera. As montanhas estarão brilhando, em tons prateados, com a luz do Sol matinal iluminando suas paredes (ainda) encharcadas. Além disso, a visibilidade alcança quilômetros, sendo possível fotografar o Rio de Niterói com facilidade , principalmente de manhã, quando a luz estará a favor.

A estiagem cria uma névoe e é boa para fazer este tipo de contra-luz, com o céu bem limpo! A névoa ressalta a silhueta das montanhas.  
Falta de chuvas: repare a linha cinza ao fundo da imagem. 
No pós-chuva, de manhã, as montanhas da cidade ainda encharcadas refletem a luz solar com um lindo prateado
Mais um exemplo de pós-chuva. 

Arco-íris
Ta aí outro fenômeno que ocorre com frequência no nosso verão. Como as chuvas de verão são bem localizadas e acabam acontecendo por volta das 18h, ainda está Sol, portanto a chuva recebe horizontalmente a luz do Sol próximo ao ocaso. Sol + chuva = Arco-íris! Para acontecer, é preciso que o tempo não esteja completamente fechado, senão não tem luz pra fazer a mágica. Esses arco-íris de chuva de verão também ocorrem à leste da cidade, em direção à Niterói, e o Pão de Açúcar mais uma vez é o astro da foto. Mas fique esperto, pois esses arco-íris são bem rápidos, duram menos que a chuva, ( a nuvem geralmente está em deslocamento e vai “desmontando” o arco-íris) então não dá pra esperar chover pra pensar se vai rolar um arco-íris. É preciso já estar de prontidão, aguardando o fenômeno.

Arco-íris quase completo se formando por trás do Pão de Açúcar
Variando o ângulo você pode conseguir “colocar” o arco-íris onde achar melhor para a composição final 

Nascer e Por Do Sol
Este item é especial em se tratando de Verão no Rio. É a época em que o Sol nasce e morre no mar! Devido ao recorte não linear das praias cariocas, já em meados de novembro (primavera) você consegue fotografar o Sol nascendo no mar – principalmente das praias da Zona Sul e Oeste – e morrendo também no mar – aí apenas das praias de Ipanema, Arpoador, Barra e Reserva.

Da praia do Arpoador em especial é onde ocorre o famoso aplauso para o Por do Sol, e nesta época do ano (dezembro) é possível alinhar o Sol entre as Ilhas Tijucas, verdadeiro espetáculo da natureza. As cores destes 2 eventos são bem saturadas, com forte presença de laranja, amarelo e vermelho, mesmo na blue hour quando a luz ainda tem uma tonalidade mais roxa e azul. Resumindo: o Sol demora para desaparecer.

Com as nuvens de calor ainda presentes no céu, o espetáculo pode ficar ainda mais grandioso, com a luz refletindo nelas. Já sem nuvens, em períodos de estiagem, as partículas de poeira suspensas no ar espalham as ondas de luz de comprimento maior (vermelho, laranja) deixando toda a cena com tons ainda mais quentes. Ou seja: Falta de chuvas + nuvens no céu (sem chuva!) = Nascer do Sol e Por do Sol ÉPICOS!

Outra particularidade do verão carioca é o calor tanto de dia quanto de noite. Isso dificulta a formação de neblinas e nevoeiros pela manhã (típicos de noites frias e manhãs quentes) ou seja, vale a pena acordar cedo para ver o nascer do Sol, pois a chance de boa visibilidade é muito grande. Ah você gosta de nevoeiros pela manhã? Eu também! Mas isso é assunto para outras épocas do ano… 😉

Se você não estiver na praia para este espetáculo diário, aproveite a silhueta das montanhas para uma imagem dramática, já que estes fenômenos no verão são mais intensos do que no resto do ano!

A luz matinal na Praia do Arpoador, vinda do mar, ilumina de frente o conjunto Dois Irmãos/ Pedra da Gávea.
A partir da Vista Chinesa é possível fotografar um belo nascer do Sol, saindo do mar.
Sol nascendo no mar, foto feita da praia do Leme. As nuvens no horizonte deram um toque especial à imagem. 
Aqui, o aplaudidíssimo por do Sol visto do Arpoador, entre as ilhas Tijucas. É comum a ocorrências de nuvens no horizonte durante o verão, portanto não perca essa oportunidade fotográfica, não é todo dia que conseguimos fazer essa foto em especial! Foto de 2013.
Como dito na foto acima, não é todo dia que o Sol dá as caras até sumir no horizonte, devido à forte presença de nuvens no Verão. Desta vez, fiquei só com a luz mesmo. 
Pores do Sol no Arpoador: Um nunca é igual ao outro. Foto de 2018.
Não está na orla? Sem problemas! Aproveite o contra-luz do por do Sol nas montanhas. Foto feita na Lagoa, em 2005.
Por do Sol épico no último dia do Verão de 2019, próximo ao Equinócio de Outono, quando a luz do Sol se alinha completamente com a Terra e incide de maneira igual tanto no hemisfério norte quanto no sul. 
Repare na força da luz do Sol irrompendo o horizonte. Esse é o nascer do Sol de verão. Feita do alto do Morro Dois Irmãos, foto de 2012.

Noturnas
O verão também não é a época ideal para as noturnas. Com a grande ocorrência de chuvas no fim do dia, na maioria das vezes a noite acaba ficando um pouco nublada, com a lenta dissipação das nuvens. No verão os dias são muito longos, mesmo no Rio, com incidência de luz até 20:00h no auge, o que dificulta a visualização de estrelas. A Via Láctea, grande personagem das fotos noturnas, também não está presente no céu do hemisfério Sul durante o verão, portanto não vale a pena nem o risco de sair com a câmera à noite, a não ser que você queira dialogar com a Lua. Aí é planejar a sua foto com a ajuda de apps como o PhotoEphemeris ou o PhotoPills e correr pro abraço. As boas fotos noturnas no verão saem justamente no final da blue hour, com o finzinho da luz do Sol no horizonte; quando não há nuvens podemos ver claramente o fenômeno chamado pelos astrônomos como Cinturão de Vênus, com uma fina luz vermelha contrastando com o horizonte azul.

Fenômeno conhecido como Cinturão de Vênus
Primeira Lua cheia de 2018, vista da Vista Chinesa; repare que as noites de verão frequentemente tem nuvens. 
Fazer noturnas no verão? A boa é caçar raios! 

E Essas foram as minhas dicas de como fotografar as paisagens naturais do Rio no verão carioca! O próximo post será sobre o outono, conhecido como “o melhor céu do ano”! Enquanto isso, o papo sobre fotografia de paisagem continua lá no meu Instagram @marcellocavalcanti1! Até!

By |2019-04-26T13:46:58+00:00April 14th, 2019|Dicas de fotografia, Viagens fotográficas|

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error: ©Marcello Cavalcanti